Carlos_Bonap
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Para quê? em 21/03/2010
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Não me parabenizem, por mais um aniversário...
Aproxima-se a data de tal acontecimento. 66 anos completo, daqui a 7 pesarosos dias. Nasci num ano a que, só por coincidência, chamaram de 1986. Sou de um tempo sem tempo, de um tempo que ninguém compreende nem irá compreender. Já não tenho motivos para festejar um aniversário, quando se tem tanta idade... Vivi até aos 21 anos um amor intenso, e passei os outros 44 a lamentar o seu final, com outra pessoa ao pé... Hoje, que a perdi, dou por mim com uma vontade imensa de voltar atrás no tempo, e resgatá-la... Quem sabe até, um dia, amá-la como ela realmente mereceu... É bem mais nova do que eu, tem apenas 20 anos... coisa feia. Mas não há grande importância. Afinal, sobre os nossos corpos só existem 4 anos de diferença, e não 46, como nas mentes. Acho que este velho não a soube preservar, estimar. Hoje a boca que beija é outra, os braços que deseja abraçar são outros, o gosto que preserva... já não é o meu. Gostava que ela soubesse o quanto eu gosto dela. O quanto, mesmo sendo já tarde de mais, eu estaria disposto a lutar para a cativar de novo... Ela não sabe, nem saberá... dirão vocês, que é público o que escrevo. Digo-vos eu, que por muito que ela lesse, que não vai ler; mas por muito que ela lesse, não saberia o quanto mata este arrependimento, nem o quanto há em mim, vontade de a fazer feliz. Falhei. Falhei num tempo que ninguém entende. Falhei 56 longos anos... 20, passados na intermitência entre um e outro amor... outros 20, simplesmente deitados fora, apaixonado sem saber, por a mulher que eu próprio mandei embora. Como é possível, tanto tempo para nos apercebermos destas coisas... Só mesmo os falhados demoram tanto tempo a percebê-lo... Hoje, hoje o tempo não volta atrás... o que foi, foi... o meu tempo chegou ao fim e por muito que eu queira, já nada mais posso fazer... Mas se pudesse, faria... Não me festejais meu aniversário. Lamentai-o comigo, apenas. Não há data tão triste, como a de 28 de Março de 1944. Data em que, mentalmente, eu nasci... Na era dos discos de 78 rotações, e em que se colecionavam num sótão velho alguns milhares de cilindros de cera, hoje digitalizados. Nasci em plena segunda guerra mundial, mas num local onde nem disso se falava. Sou do tempo da rádio, e só da rádio. Das estações piratas no distrito do Porto, da rádio Alcácer e daquilo que viria a ser a emissora nacional. E só não me lembro de mais, pois uma mente presa a um corpo sofre muito, e muita coisa se perde. 66 anos é uma idade linda, quando temos quem gostamos ao nosso lado... não quando nos começamos a sentir inúteis para o mundo. Quando olhamos para trás e vemos que falhamos a vida inteira... Só a morte é socego, nessa altura. É por ela que esperamos e que temos como conforto, que mais dia menos dia, ela chegará... E não... não é por estar, apenas e só, num estado depressivo... Se alguém leu o meu post ainda de Agosto do ano passado, numa altura em que andava feliz e contente, vai ver, que a minha primeira viagem numa Rede Expresso, reporta há mais de 40 anos... Não era por acaso. Sofri perdas que me envelheceram muito depressa. Será que algum dia, eu poderei ter de novo, a idade que tem o meu corpo? Que idade terei quando chegar aos 33 anos físicos, quando supostamente a minha vida termina? 80, talvez... ou então só 70, será? Juro-vos que ando muito pensativo sobre isso. Sobre isso, e sobre a pessoa que perdi, e que neste momento daria tanto, mas tanto mesmo, para ter de volta... Os problemas não ficariam todos resolvidos. Mas já teria mais um motivo, um grande motivo, para gostar mais e mais da vida, e para enfrentar os problemas... já teria de novo a companhia que sempre gostei de ter, sabendo agora, valorizá-la... Dizem que não serve chorar sobre o leito derramado... não serve, mas torna-se inevitável, quando 1 ano vosso apenas, significam 20 meus... Carlos |
Carlos_Bonap
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