Carlos_Bonap
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33 25 86 em 15/10/2008
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Palavras ao vento.
São estas que escrevo e que até demoram a sair-me das mãos. Mas quando saem voam, com o vento, nas asas dos teus dedos. Sozinho neste quarto, ao fim de tantos anos, descubro ainda em mim pedaços teus, coisas que nem sei de gavetas que desconhecia. Abro-as, e não sei como encontro a mesma coisa pela segunda vez. Mas mesmo igual, quase que me atrevo a guardá-la quase tão religiosamente como a primeira. Não acredito que já lá vão 27 anos desde que partiste, desde que fôste, e não sei ainda como há tanto para descobrir, ineditamente, nestes 27 anos que se sucederam. Fiz a minha vida e tu a tua. Não deixei de ser feliz com a mulher com quem casei, nem com os filhos que tenho e que ainda hoje vejo crescer a olhos vistos. E não me arrependo da escolha que fiz, porque esperar por ti seria um nada, porque tu partiste. Também casaste, soube, há uns 15 anos, contaram-me. Não estás velha, mas imaginar-te a caminho dos 50 anos quando nem 20 tinhas, é no mínimo estranho. Eu continuo, a escrever palavras ao vento, a descobrir pedaços teus, e na esperança de uma outra vida que não esta; uma vida mais justa e que acabe por unir as duas pedrinhas de oiro. Lembras-te do que nos chamávamos na juventude? A pedrinha de oiro que só brilhava quando a outra a refletia, lembras-te? E lembras-te dos beijinhos roubados à sucapa junto ao portão da escola, antes da tua mãe chegar? Quando ela me via desatava a correr feito um tolo, na verdade amava-te e nem sei como tudo acabou, ou... porquê. Mas valeu apena. Hoje continuo a ter-te aqui na minha cabeça, sem que a minha mulher ou os meus filhotes se dêem conta. Na verdade eles nem sabem que tu existes. Ela claro, soube. Tinha de lhe contar. Fiquei adulto quando me deixaste. Fiquei pocessa, elouqecida e desmesuradamente adulto. Gostava de te encontrar de novo, para te roubar beijinhos à sucapa, de novo, junto ao portão da velha escola. Mas a vida fez-nos, passou-se e somos felizes na mesma. Tu, escreves num computador, num escritório. Eu escrevo no quintal, com papel e lápis, à maneira antiga... palavras ao vento. Ricardo Quintela "palavras ao vento" 1997 |
Carlos_Bonap
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