carlos_bonap
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EU SOU ASSIM em 31/01/2010
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Termina hoje mais uma etapa da minha vida.
Fecha-se hoje o livro onde escrevi uma das histórias de amizade mais bonitas da minha vida. E claro, tinha de ter um final trágico, por assim dizer. Na última conversa que tive com essa adolescente, a mais próxima, fiquei com a sensação de que os pais conseguiram fazer com que ela duvidasse do facto de eu ser invisual. Escolhi então para esta postagem, uma foto que tem na descrição "a minha cara em grande plano.jpg". Assim, para todos, espero que se vejam bem os meus olhos, um maior e mais branco do que o outro. Pois... naturalmente, pois o outro é uma próteze que tenho. Quando fui para o hospital já ia em coma, tinha 15 dias. E com 15 dias tiveram que me tirar o olho esquerdo, para que eu pudesse sobreviver. E para quem quiser saber mais, pesquise no google ou na wikipedia por "glaucoma congénito". Vejam sintomas, o que é, etc etc... Acho que o motivo base foi pelo facto de eu pedir fotos. É para isto mesmo, para postar aqui no free. Ou em último recurso, para ter no computador, para mais tarde poder passar por aquela pasta e ver lá os nomes... "marlise à porta do prédio cor-de-laranja", "Carlos e mana Sara abraçados.jpg", "Elsa e Filipa nas escadas do Politeama.jpg", "Bete e a caixa de pringles.jpg"... Eu posso não ver! Mas sei o que é... Talvez para muitos não faça sentido, assim como não faz sentido um surdo pedir uma gravação de voz nossa. É... é verdade eu reconheço que não faz sentido! Mas isso não significa que o surdo não seja surdo, que o cego não seja cego... Mas mais do que isso é importante que se pense, que a maior parte das pessoas que diambulam por este planeta, estão muito mais depressa dispostas a mandar fotografias suas, do que gravações de voz. De certa forma foi a melhor possibilidade que vi de me adaptar à sociedade. Sinceramente não me arrependo de nada do que fiz. Não me arrependo de nada do que dei à adolescente, hoje sem nome e sem rosto. Se voltaria a dar? Todavia, depois de saber deste desfecho... não sei. E não sei por um motivo. Primeiro porque me sinto posto em causa por uma das minhas melhores amigas. Verdade, ela só tem 13 anos, e se calhar quem lhe mudou a ideia sobre mim foram os próprios pais. Eu posso compreender e aceitar, mas não fico nada feliz com isso. Segundo, porque dei tanto do que dei, e mesmo sem cometer erros de maior, perdi-a. Mas mesmo assim, talvez desse. Talvez, não sei. E digo talvez desse porque eu adorei dar tudo o que pude, tudo aquilo que tive oportunidade... Talvez... Agora. Aos pais da adolescente? Nada. Nada mesmo! Se quiserem que se desenrasquem, que procurem a ajuda que é obrigação deles procurar, e que eu tomei a iniciativa de o fazer. Pode ser ironia do destino. Mas sabem... essa tal minha amiga, disse-me que contou aos pais tudo. As fotos que lhe pedi, o nosso encontro que nunca chegou a acontecer, essas coisas... e se ela diz que contou tudo, eu deduzo também que tenha contado que eu me predispus a ajudá-la, a ela e a todos os dela. Pais e irmão. E se mesmo assim, os pais a poderão ter virado contra mim... então amigos, ajudá-los nem pensar. Um dia, se o mundo der uma volta de 180 graus e voltar a falar com a pequena, tudo certo. Dar-lhe-ei a mão de novo e farei o que estiver ao meu alcance por ela, se a amizade se mantiver. Mas aos pais? Não. Lamento por ela e pelo irmão, mas aos pais? Nada disso! Atenção! Eu estou a tomar em conta que eles sabem tudo mesmo! Não me quero aqui vangloriar de nada, não sou nenhum super herói, mas acreditem que fiz por eles aquilo que nunca pensei que pudesse fazer por ninguém... tanto mais por pessoas com quem nunca falei, e que até já calculava que quando soubessem quem eu era, me fechassem a porta! Mesmo assim eu quis tentar ajudá-los! Está um processo aberto na câmara municipal onde a adolescente reside, em meu nome, não é mentira! Irá sim, ser fechado amanhã, como é claro. Epá, mas amigos... é revoltante, é frustrante, é enervante! Mas nem esta me há-de deitar abaixo! Hoje mesmo, ainda, eu vou levantar-me, e ser capaz de olhar para a frente. E se noutro próximo dia, voltar a conhecer outra adolescente de 13 anos, eu vou voltar a falar com ela e a fazer tudo o que estiver ao meu alcance, por ela como farei por qualquer grande amigo que tenha. Porque a mim já muitas vezes me venceram. Os outros e eu venci-me a mim mesmo. Agora basta. Eu tenho a sorte de ter muitos amigos, como disse à Cristiana, que conheci aqui pelo free, tenho uma mão cheia de amigos, e mais 2 ou 3 para a outra mão. Isto, daqueles que sei que são mesmo mesmo verdadeiros, que já não restam dúvidas sequer. Dos outros... dos outros são mais de uma dezena. Mas, ou pelo tempo, ou pela falta de contacto ou de oportunidades de me valerem... enfim! Todos temos destes amigos. Mas em suma! Eu continuo a ter amigos, continuo a sentir-me rodeado de boa gente, e a adolescente não ponho sequer em causa que seja uma excelente pessoa... mas o que quero dizer é que por morrer uma andorinha não acaba a Primavera... Boa noite a todos. Carlos |
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