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hi5 :D


@ " Há muitos tipos de corações. Há corações pequenos e tímidos, há
corações grandes e abertos, há corações onde é preciso meter
requerimentos de papel azul e selo de garantia para abrirem as portas e
outros cheios de janelas, frescos e arejados. Há corações com trancas...,
segredos e sistema de alarme que são como cofres de bancos. Corações
sombrios e desconfiados, com fechaduras secretas e portas falsas.
Corações que parecem simples, mas quando se entra lá dentro, espera-nos o
mais perverso dos labirintos. E há corações que são como jardins
públicos, onde pessoas de todas as idades podem entrar e descansar. Há
corações que são como casas antigas, cheios de mistérios e fantasmas,
com jardins secretos e sótãos poeirentos, carregados de memórias e
recordações e há corações simples e fáceis de conhecer, descontraídos e
leves, sempre em férias como tendas de campismo. Há corações viajantes,
temerários e corajosos, como barcos à vela que nos parecem bonitos ao
longe, mas que nos deixam sempre na boca o sabor amargo de nunca os
conseguirmos abarcar... Há corações missionários, despojados e enormes.
Há corações que são paquetes de luxo, onde o requinte é a palavra-chave
para baterem... Há corações que são como borboletas e voam de um lado
para o outro sem parar, numa pressa ansiosa de viver tudo antes que a
vida se acabe.
Há corações que são como elefantes do zoo, muito
grandes, pacíficos e passivos que aceitam viver limitados pelos outros e
que até tocam o sino se os tratarmos bem e lhes dermos mimos e corações
aventureiros, sempre prontos para partir em difíceis expedições e se
ultrapassarem a si mesmos. Há corações rebeldes e selvagens que não
suportam laços nem correntes, corações que correm tão depressa como
chitas e matam como leoas, e depois há corações gnus, que sabem que vão
ser caçados mas não fogem ao seu destino...
Há corações que são como rosas, caprichosas e cheios de
espinhos e outros que são campainhas, simplórios e carentes sempre a
chamar por afecto. Há corações que são como girassóis, rodando as suas
paixões ao sabor do brilho e da glória e corações como batata-doce, que
só crescem e se alimentam se estiverem bem guardados e escondidos
debaixo da terra.
Há corações que são como pianos, altivos e majestosos
onde só tocam os que possuem a arte de bem seduzir. E corações como
harpas, onde uma simples festa provoca uma sinfonia.
Há corações incondicionais que vivem tão maravilhados
em descobrir a grandeza de outros corações que às vezes se esquecem de
si próprios... Há corações estrategas, que batem ao ritmo de esquemas e
planos, corações transgressores que vivem para amar clandestinamente e
só sabem desejar o proibido e corações conservadores, que só se entregam
quando tudo é de acordo com os seus padrões e valores.
Há corações a motor, que vivem só para o trabalho e
corações poetas só se alimentam de sonhos e ilusões. Há corações
teatrais, para quem a vida é uma comédia ou uma tragédia e corações
cinéfilos que registam a beleza de cada momento em frames de paixão.
Há corações duros como aço, sem arritmias, onde nada
risca e faz mossa e corações de plasticina que se moldam às formas dos
corações que amam. Há corações de papel, bonitos e frágeis que se
amachucam facilmente e desbotam à primeira lágrima, há corações de vidro
que quando se estilhaçam nunca mais se recompõem e corações de
porcelana que depois de se partirem ainda sabem colar os destroços e
começar de novo.
Há corações orientais, espiritualizados e serenos e
corações ocidentais hedonistas e ambiciosos, corações britânicos onde
tudo é meticulosamente arrumado segundo costumes e convenções, latinos
que batem ao som da paixão e da loucura.
Há corações de uma só porta que são como grandes casas
de família e outros de duas portas, uma para a sociedade e outra para a
intimidade. Há corações que são como conventos, silenciosos e
enclausurados e outros que são como hotéis, onde se paga o amor sem
amor, escandalosos e promiscuos. Há corações parasitas, que vivem do
afecto dos outros sem nada dar e corações dadores que só são felizes na
entrega.
Mas há ainda uma ou outra espécie de corações, os
corações hospedeiros que sabem receber e fazem sentir os outros corações
como se estivessem em casa, que dão e aceitam amor sem se fixarem, que
tratam cada passageiro como se fosse o último, enquanto procuram o
coração gémeo, sempre na esperança, secreta e nunca perdida de um dia
deixarem de viajar e sossegarem para a vida.´


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