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Propriedade
Propriedade em 01/12/2007
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Hemisfério esquerdo diz:


 


Aqui vai uma coisa pequena, para variar um bocadinho.


 


Noutro dia perguntaram-me porque é que defendo tanto o valor da propriedade. Não tive tempo de responder naquela altura. Tratarei do assunto agora.


A propriedade forma, com a liberdade e o trabalho, um todo harmônico e indissociável. Assim o é que, quem nega um deles, está a negar os os três. E quem afirma um, afirma os três.


De facto, todo o ser vivo, desde a mais modesta célula até um pássaro ou um leão, tem necessidades e é dotado de aptidões destinadas à satisfação dessas necessidades. Assim, o pássaro ou o leão quando têm fome, o seu instinto lhes faz conhecer e apetecer o alimento apropriado. E o seu corpo tem os meios necessários para se apoderar desse alimento e ingerí-lo. Há, pois, uma correlação natural entre as necessidades e as aptidões de cada ser vivo.


Este princípio universal aplica-se também ao homem. E daí decorrem, para cada homem, os três direitos de ser livre, de trabalhar e de se tornar proprietário.


Com efeito, para satisfazer as suas necessidades, o homem tem uma alma inteligente e dotada de vontade, para ver e querer aquilo de que precisa. Seu corpo é, para ele, fonte de múltiplas necessidades, e também instrumento para fazer o que for preciso com fim de as atender. Desta situação, decorre, para o homem, ter, simultaneamente:


 


1. O direito à liberdade de agir segundo a sua recta razão para atingir o seu fim;


2. O direito de exercer um trabalho como meio de atender as suas necessidades;


3. O direito de propriedade.


 


Sim, o direito de propriedade. Não pretendo, neste breve texto, expor todas as origens legítimas da propriedade. Vejamos simplesmente como ela nasce da liberdade e do trabalho.


Porque o homem é dotado de uma liberdade natural, ele não é escravo, mas dono de si mesmo.


Porque o homem é dono de si mesmo, é dono de suas aptidões, e do trabalho mediante o qual exercita suas aptidões. E, porque o homem é dono de seu trabalho, é dono do fruto de seu trabalho. Isto é, o homem é proprietário de seu salário. A propriedade nasce, pois, da liberdade e do trabalho.


Vejamos agora como a propriedade do salário gera a propriedade de toda a sorte de bens móveis e imóveis. Porque o homem é dono de seu trabalho e de seu salário, pode trabalhar mais ou menos, e economizar mais ou menos. Trabalhando e economizando muito, poderá formar um "pé de meia" para ficar despreocupado quanto ao dia de amanhã. Ou para adquirir instrumentos de trabalho com que possa montar uma empresa ou para comprar um imóvel que alugue a terceiros. A propriedade – a expressão é de um papa qualquer – é trabalho condensado e acumulado.


Assim, da liberdade e do trabalho de cada qual, nasce a propriedade.


 


Respondo ainda a algumas possíveis objeções.


 


1 – Não é injusto que uns se tornem proprietários, enquanto outros, por doença, infortúnio ou preguiça, não conseguem para si tal resultado?


 


Isso seria o mesmo que perguntar se não é injusto haver gente que goze saúde, passeie ou viaje, enquanto outros, por doença, infortúnio ou preguiça, não podem fazer o mesmo. Aos que estão em situação de inferioridade, ajuda-se. Porém não se corta o curso normal das coisas por causa de situações anormais, culposas ou não.


 


2 – Mas a propriedade não se presta a abusos?


 


Sim. Há que evitar isso. Mas nem por isto é o caso de a perseguir e mutilar. Também em matéria de liberdade e de trabalho há abusos possíveis. Todos concordam em os evitar. Ninguém concordaria por isto em mutilar ou perseguir a liberdade ou o trabalho.


 


3 – Se a liberdade, o trabalho e a propriedade são tão conexos, porque optei por falar só em "propriedade"?


 


Eu defendo a propriedade. O que é, hoje em dia, mais carente de defesa? A liberdade e o trabalho, que todos glorificam? Não. Mas a propriedade, que os demagogos e os tolos com todas as forças atacam.


Sim, defendo a propriedade, e nela e com ela, implicitamente, o trabalho e a liberdade.


 


Júdica nocéantes me; expúgna impugnántes me

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